|
Deficientes das Forças Armadas A guerra de João pelo direito à dignidade
Terminou esta manhã uma
greve de fome que durou nove dias. Tentou chamar a atenção
do governo para os problemas dos ex-combatentes de guerra,
mas não sabe se conseguiu. "Ainda ninguém me disse nada...".
João Gonçalves, presidente da Delegação de Viseu da
Associação dos Deficientes das Forças Armadas, pede justiça
para aqueles que lutaram "em nome da liberdade".
Eduarda Freitas
|
|||
|
|||
Na secretária desarrumada, João Gonçalves procura as fotografias. "Quer ver como eu era antes do acidente?". A mão direita mergulha numa pilha de papéis. "São processos dos nossos associados....Ah! Aqui estou eu... era assim...". Mostra. João Gonçalves, encostado às grades do navio Niassa, o mar de fundo, um preto e branco desbotado, quase cinzento. Noutra fotografia, lê-se "Feliz Natal", a espingarda ao ombro, o cabelo muito curto. "Era um homem forte!", diz, com os olhos fixos nas fotos. "Esta... esta é já no hospital...". E é um João Gonçalves de corpo magro, a cara torta, o lugar dos dentes deixado em vazio. Com 21 anos, João foi uma das vítimas do rebentamento de minas, em Moçambique. No dia 29 de Maio de 1971 viu morrer os dois colegas que caminhavam ao seu lado. João ficou com a parte esquerda do corpo em muito mau estado. O maxilar partido, o braço e a perna deslocados. Os músculos paralisados. Até hoje. João não mexe o lado esquerdo do corpo. "Sabe, já sofri muito". Sorri. Triste. "Eu sou forte. Uma semana
sem comer está a custar-me, claro, mas vou conseguir". A
conversa foi tida ontem. Ultima dia da greve de fome de João
Gonçalves. Por volta das sete da noite, o corpo ameaçava não
aguentar muito mais. Esta manhã, João desistiu desta forma de
protesto. Contudo, garante, "sem fome, a luta vai continuar!".
Um telefonema da filha, nutricionista, a alerta-lo para o mal
que estava a causar ao organismo, levou este antigo militar a
ponderar e a ser mais comedido na forma de mostrar desagrado às
politicas do governo, relativas aos ex-combatentes de guerra.
A saúde, está no topo da lista. "Até 2005 tínhamos direito a assistência médica em qualquer hospital, agora só temos nos hospitais militares". E, recorda, que são apenas três: Coimbra, Porto e Lisboa. João depositava esperança do Orçamento de Estado para 2009. Desiludiu-se. "No Orçamento, nada consta sobre o que o Governo nos tirou, no direito à saúde a 100 por cento. Nem na actualização das pensões pelo Salário Mínimo Nacional...". Por isso, diz, a única solução foi fazer
greve de fome, para chamar a atenção do governo para as
exigências que considera justas. "Exigimos assistência médica a
100 por cento nos hospitais e centros de saúde, reparação de
próteses e equipamentos, actualização das pensões das viúvas,
que recebem pensões de miséria na ordem dos cem euros por
mês...", conta.
A guerra por dentro Fim de tarde. João está sentado à secretária da delegação da Associação. Lá fora chove. Está muito frio. João tem os olhos cansados, a voz sai-lhe em tom baixo. As palavras pausadas. Às vezes, leva a mão ao peito. "Tenho dores...", diz. João Gonçalves é casado, tem três filhos. "Desde que comecei a fazer greve de fome, que venho para aqui por volta das 6 da manhã. Não consigo dormir...às cinco já estou acordado". João contou sempre com o apoio dos amigos e de um em especial, enfermeiro. "Veio ter comigo todos os dias, mediu-me a tensão arterial, viu os níveis de açúcar no sangue". Nas palavras de João sente-se o passado. Nunca mais voltou a Moçambique. Do país de calor húmido, não sente ressentimentos. "Talvez um dia volte...". Talvez. Para já, os dias de João travam-se na delegação da associação, onde se pode ler, num cartaz com uma foto de um dos associados, com uma prótese a fazer de mão, "a paz é uma exigência permanente". João acena que sim, à frase, ao sentimento, e garante que nunca se arrependeu de ter lutado por Portugal. Do presente, só pede o que diz ter direito. "Dignidade...é que muitos de nós, ainda trazemos a guerra por dentro". |