Espanha quis invadir Portugal em 1975 - fonte Webtuga
Apoio norte-americano foi solicitado por Madrid
Estudo do
Expresso explica rumores antigos
30.09.2006
Uma interessante investigação de dois jornalistas do semanário Expresso
publicada na edição deste Sábado, vem deitar luz sobre alguns acontecimentos do
chamado período revolucionário em que Portugal esteve mergulhado desde Abril de
1974 até Abril de 1976, quando se estabelece a normalidade constitucional.
Segundo o Expresso, em Setembro de 1974, o General António de Spínola, que tinha
sido apontado como Presidente da República a seguir à revolução, estaria certo
de que o Partido Comunista estaria prestes a tomar o poder.
Nessa altura, e em desespero de causa, sem aliados internacionais de monta que o
pudessem apoiar - principalmente porque a sua visão do Portugal pós 25 de Abril
não passava pela entrega imediata das colónias aos movimentos africanos de
«libertação» - Spínola tomou decisões que podem a esta distância permitir
concluir que se encontrava numa situação de algum desespero.
Assim, segundo o jornal, Spínola estabeleceu contactos com o departamento de
estado norte-americano, no sentido de pedir aos Estados Unidos apoio para uma
intervenção da NATO em Portugal, com o objectivo de impedir a tomada de poder
pelo Partido Comunista e a instalação de um governo pró-soviético em Lisboa.
Já em Maio de 1974, menos de um mês depois da revolução, Spinola encontra-se nos
Açores com o então presidente americano Richard Nixon, envolvido em pelo
escândalo Watergate. A administração americana ao longo do Verão de 1974 estava
tremendamente debilitada e paralisada pela situação interna.
Em 9 de Agosto, o presidente Nixon demite-se e para Spinola que vê com mais
apreensão a situação internacional, bem como a situação nacional as coisas
começam correr muito mal. Está cada vez mais abandonado na presidência da
república e a fraqueza dos Estados Unidos, leva-o mesmo a considerar a
possibilidade de apelar à Espanha de Franco, no sentido de ao abrigo do pacto
ibérico pedir a intervenção armada do regime franquista em Portugal.
A versão «livre» que corre mais ou menos oficiosamente nos vários fóruns onde se
discutem de forma mais ou menos aberta estes temas, mostra que de facto há muito
tempo que se falava que exactamente por esta altura, o Departamento de Estado em
Washington, terá contactado o governo de Francisco Franco, no sentido de lhe
dizer que os Estados Unidos não se oporiam a que a Espanha invadisse Portugal.
O estudo agora divulgado pelo Expresso, vem dar corpo a esta tese, de que de
facto os americanos contactaram o governo espanhol, e que o fizeram porque
consideraram que não havia condições para que a Aliança Atlântica efectuasse uma
operação de considerável envergadura contra um país membro.
Os americanos, desta forma facilitariam a invasão de Portugal pela Espanha,
garantindo assim que não haveria um governo controlado pelos pró-soviéticos em
Lisboa.
A resposta espanhola:
Em 1974, Franco, embora doente e com sinais de alguma senilidade, era ainda a
cara do regime inspirado na Alemanha Hitleriana, instalado no poder com o
triunfo na guerra civil espanhola.
O desejo da extrema direita espanhola de anexar Portugal, nunca deixou de estar
na ordem do dia [1] e por isso a questão foi analisada.
No entanto, deparavam-se perante a Espanha problemas de resolução muito
complicada. A Espanha sería vista como um país invasor dentro da Europa, o que
isolaria a Espanha do ponto de vista internacional. Os Estados Unidos davam
garantias de apoio a Franco, mas não poderiam evitar a oposição dos países
europeus, para não falar da União Soviética e dos países não alinhados.
A invasão, embora a superioridade militar espanhola fosse enorme, poderia
transformar-se numa atoleiro, que inevitavelmente seria aproveitado pela
esquerda espanhola, que apenas precisava de alguns argumentos para justificar a
luta armada contra a Espanha franquista. A mesma esquerda espanhola, que já
estava em Portugal, e que esteve por exemplo na origem do ataque à embaixada de
Espanha, ocorrida no verão quente, quando Franco condenou à morte alguns
militantes independentistas do País Basco.
A Espanha não se atreveu a iniciar tal campanha, por serem enormes as
possibilidades de um desastre, que poderia fazer ricochete, e colocar em causa o
próprio regime de Franco. Por isso a intervenção nunca veio a ocorrer.
O terceiro plano foi posto em prática parcialmente. Spinola demite-se e mais
tarde escolherá a fuga para Espanha e depois para o Brasil, onde ficará até à
normalização da situação em Portugal.
[1] Vide nas memórias de Franco Nogueira, as análises feitas pelo então ministro
dos negócios estrangeiros sobre o seu homólogo Espanhol, «Castielha» que lhe
confidenciou pessoalmente, que 90% dos espanhóis achavam que Portugal deveria
ser absorvido, mesmo pela guerra se necessário.