"Se é milagre ou não, a verdade é que ando"
JOSÉ MANUEL OLIVEIRA (Diário de Notícias)
Fé.
Espanhola de Trigueros, perto de Huelva, foi a Fátima em cadeira de rodas,
no dia 13 de Outubro, com a perna esquerda paralisada devido a uma cirurgia
que correu mal. Diz que sentiu um impulso para se levantar e foi o que fez.
Acredita que foi um milagre da Virgem. A igreja não comenta
Antonia estava em Fátima quando se levantou e andou
Não é beata, mas vai à igreja todos os dias pedir "saúde e paz". Acompanha
também pela televisão as cerimónias religiosas. Devota de Nossa Senhora de
Fátima "desde criança", Antonia Garrido Vallejo, de 68 anos, residente na
povoação de Trigueros, perto de Huelva, esteve retida desde 2006 numa
cadeira de rodas, com a perna esquerda paralisada, em consequência de uma
intervenção cirúrgica à bexiga. A 13 de Outubro, deslocou-se a Fátima.
Quando, na manhã desse dia, estava no santuário "a falar com a Virgem e com
uma foto dela ao peito, senti um impulso para me levantar e foi o que fiz".
E passou a andar.
Antonia vai há mais de 30 anos a Fátima, mas a última vez até foi mais por
influência do marido, que a acompanhou, bem como alguns amigos e vizinhos.
"Não tive vómitos, nem fadiga, nada", conta ao DN, não tendo dúvidas em
atribuir o sucedido a "um milagre de Nossa Senhora de Fátima". Já a andar
normalmente, garante ter recuperado a alegria de viver. "Sinto-me alegre e
feliz como se tivesse 20 anos", nota, no meio da sua simplicidade e
convicção.
Antes de o problema clínico a ter atirado para uma cadeira de rodas, Antonia
Vallejo, que foi durante anos comerciante até se aposentar, dedicava parte
do quotidiano ao voluntariado numa instituição de solidariedade social em
Trigueros. Prestava assistência a doentes. "Tinha uma vida normal,
levantava-me cedo, fazia compras com o meu marido e todos os dias ia à missa
no convento situado perto da minha casa", recorda.
Quando o drama lhe bateu à porta, a sua vida deu uma volta de 180 graus. "Os
dias não tinham significado e sentia que estava morta. Dependia do meu
marido e não queria dar--lhe trabalho. Recebia a visita de vizinhos, amigos
e familiares a as minhas netas perguntavam-me o que se passava. Mas, apesar
de tudo, sempre acreditei que podia recuperar", refere Antonia Vallejo. O
médico, em Huelva, é que não acreditava. Apesar do sofrimento, a senhora ia
à missa. Mas para sair do seu apartamento, no primeiro andar, tinham de a
ajudar a sair da cadeira de rodas, uma tarefa sempre difícil.
No dia 13 de Outubro, o marido, Enrique Perez, "nem quis acreditar no que
via. Já a vizinha Matilde Serrano, que a conhece há 33 anos, afirma: "Agarrámo-nos
uma à outra a chorar. Acredito que foi milagre."
À pacata povoação de Trigueros passou a afluir gente de toda a Espanha. "Uns
acreditam que se tratou de milagre, outros, não. Mas o fundamental é que
comecei, de novo, a andar", sublinha, radiante, Antonia.
À porta do Convento del Cármen, Mónica Cuyas duvida do milagre e considera
"ter sido uma questão psíquica". "A fé move montanhas e a verdade é que a
senhora anda", observa. Para Fernando Iglésias, de 45 anos, comerciante,
"houve uma situação muito especial, parece milagre". E acrescenta: "A Igreja
mostra-se sempre reticente em situações deste tipo, mas penso que devia
aproveitar este caso para fazer aumentar ainda mais a fé das pessoas desta
terra."
O sacerdote não fala sobre o assunto, preferindo aguardar pelo resultado dos
exames médicos.


(Fotos do Correio da Manhã)